8h54
— Senhora Cristina Albuquerque?
— Sim?
— Pode entrar. Sala três, segunda porta à direita.
— Obrigada.
8h55
— Bom dia, Fernanda, tudo bem?
— Bom dia, dona Cristina, tudo na paz, e a senhora?
— Melhor agora. Gostei da pontualidade e do novo lay-out. A sala parece que ficou maior.
— É mesmo! É bom mudar um pouco, né? Ficou bonita, hein? Só que as clientes perdem muito tempo olhando no espelho, aí atrasa quem vem depois. Ainda bem que a senhora chega cedo. O que vamos fazer hoje?
— Não me chame de senhora, já nos conhecemos há tanto tempo. Você sabe que não tenho essas frescuras de patroa e, depois, vou me sentir mais velha. Já basta olhar no espelho! Hoje só vou fazer a virilha. Não aguentei esperar… acabei passando a gilete nas pernas. O pelo está muito curto, não dá para depilar.
— Então vamos. Pode pôr a roupa ali no cabide. A bolsa também.
— Hum-hum.
— A senhora vai querer como sempre? Só limpar o biquíni? Oh, desculpe… força do hábito.
— Fernanda, Fernanda, vai ficar sem gorjeta, hein? Ai, ai, não digo mais nada! Hummm… Estou numa dúvida danada. Não sei o que fazer. Não gosto muito cavado, mas os brancos estão aparecendo demais. Parece que brilha! A idade é uma merda.
— Que tal modernizar? Vamos tirar tudo? Deixar que nem as japonesas?
— Não! Careca não! Vai ficar parecendo uma rã. Pare de rir, Fernanda!… Vai dizer que também não acha? É a pura verdade, parece uma rã.
— Hahahahahah, a senhora é engraçada. Eu já estava me animando. Acho que devia tirar tudo… tá na moda.
— Que moda que nada!
— Então pode ser tipo moicano?
— Vixe. Só o filetinho? Não! Tenho péssimas lembranças. Chorei horrores no filme “O Último dos Moicanos”… não é do seu tempo. Tem também os punks… cruz-credo… e pensar que eu namorei um deles… totalmente sem juízo! Não! Perereca moicana não dá. É demais da conta… um horror.
— Hummmm… tem uns modelos comemorativos do tipo coração, borboleta, mas acho que a senhora não vai gostar.
— Meu Deus, o povo inventa é coisa! Tô pensando aqui… podia ser mais largo que o moicano, mas deixando o formato do biquíni, assim… um pouco triangular. Dá pra fazer?
— Que dá, dá! Só não sei se vai ficar bom. Pode deitar. Tá grandinho, hein? Quanto tempo que não vem aqui?
— Acho que já tem uns três meses. Talvez um pouco mais.
— Por isso os brancos estão chamando tanta atenção. Não se preocupe! No final a gente passa a máquina pra desbastar.
— Ai meu deus, vai começar o sofrimento. Por que mulher inventa essas coisas?
— Tá muito quente?
— Até que nããããããããão, ai, ai, ai, vai com calma.
— Relaxe, só mais pouquinho e a senhora acostuma.
— Acostuma naaaaaada! Uuuiiiiiii, aiiiiiiiii, Jesus Maria José, me acuda!
— Vira o outro lado. Já já termina.
— Aaaaahhhh! Para, para, para!!!!!!! Esse lado tá mais sensível.
— É sempre assim. Um lado é sempre pior que outro. Coragem! Só mais um pouco.
— Aaaaahhhh! Assim você vai me deixar sem pele.
— Que exagero! Até parece que nunca fez.
— Exagero??? Porque não é você deitada aqui, toda arreganhada e pegando fogo.
— Dobre a perna. Vamos limpar o miolo?
— Claro, né? Já tô no sofrimento, limpa logo.
— A senhora devia tirar tudo. Seu marido ia gostar.
— Se eu fosse novinha, até podia pensar, mas agora… só vai ver as pelancas…
— Hahahahahah! Larga de besteira, a senhora tá muito bem e, depois, não tem idade pra isso não.
— Aaaaaaaiiiiiiii!
— Só mais um pouquinho. Segure aqui. O outro lado. Pronto.
— Minha Nossa Senhora, socorro! Tô suando frio.
— Tá tudo bem? Tá viva?
— Em estado de choque…
— Vamos afundar o decote? Pode virar de bruços.
— Sabe que eu pensava que esse doía mais? Mas até que não. Acho que de todos é o menos pior.
— Agora a senhora me ajuda. Segure aqui. Pronta?
— Hum-hum.
— Um, doissss…
— Aaaaahhhh, ufa. Juro que de todos só sinto falta desse. É uma questão de higiene. Sei lá! No banho fica ótimo, tudo limpinho.
— E sem cheiro, né? Pronta?
— Aaaaahhhh! Esse vale o sofrimento.
— Pode desvirar.
— Ai, que alívio.
— Dona Cristina, posso dizer a verdade? Num achei legal esse modelo da senhora, não. No fim das contas, não tem um modelo… nem é careca, nem é moicano, nem é triângulo, nem tem desenho nenhum. Tá esquisito!
— Tá mesmo. E agora?
— Melhor arrancar tudo.
— Não, careca, não!!!
— Então deixa o moicano. Pelo menos fica com algum desenho.
— Hum, será? Ai Deus, agora essa. Então tá. Mas faz assim, deixa o lado reto, sem o triângulo, mas não deixa muito fininho. Acho muito fino um horror.
— Certo.
— Ahhhhhhhhhh! Uuuuuuuuuui! Caramba!
— Prontinho. Vou passar a máquina.
— Afff. Chega! Tô tremendo. Ainda bem que terminou.
— Hummmm! Mais ou menos, tá curtinho mas os brancos ainda estão aí. Dois minutinhos e o tonalizante disfarça tudo.
— Como é? Você quer pintar os pentelhos?
— É! Igual faz com sobrancelha.
— Geeeezuzzz!!! Isso funciona?
— Claro! Olhe, tem essas cores aqui.
— Só não vá me deixar acaju.
— Essa ou essa?
— Essa!
— Prontinho. A noite promete… E aí? Gostou?
20h55
— Mô?
— Hein?
— Escolhi um filme pra gente ver hoje.
— Hum???
— O que foi? Não posso escolher? Você vai gostar. Se passa na Segunda Guerra. Só que nesse filme o Hitler tem bigode azul…
Publicado em 27/09/2020, na @temposcronicos.
Publicado na 3a edição da zine SUBMARINO #3 – CONTOS DOS CONFINS. @latoscainc
A zine é uma publicação da La Tosca @latoscainc e o Submarino é um curso de escrita de ficções, conduzido pelo escritor Ronaldo Bressane @ronaldobressane, responsável pela edição.
Imagem: o ator inglês Charles Chaplin em fragmento de fotograma do filme “O grande ditador” (“The great dictator”), de Charles Chaplin, 1940.











