Organizadores: Ancelmo da Rocha e Mariano Leal de Paula
Caminho do Vale do Pati
Jealva Ávila
O Vale do Pati fica no interior do Parque Nacional da Chapada Diamantina, Estado da Bahia — um local de beleza natural exuberante com rios, cachoeiras e montanhas.
Percorrer o Vale do Pati requer um pouco de preparo físico e muito desapego da tecnologia. Você terá que caminhar em meio a pedras, atravessar rios, subir e descer montanhas, tudo isso completamente desconectado – a menos que leve um GPS.
Existem diferentes caminhos para quem quer cruzar o Pati: ao norte pela Vila do Capão; a leste pela cidade de Andaraí; ao sul pela cidade de Mucugê e a oeste pela Vila de Guiné. A minha sugestão de roteiro é ter como base a Vila do Capão no município de Palmeiras, iniciar a caminhada pela Vila do Guiné e retornar pela Vila do Bomba, próximo à Vila do Capão.
O menor percurso é o de três dias, mas eu recomendo que faça o de cinco dias, no qual percorremos aproximadamente 60km, entre 10 a 20km por dia. Como a região possui muitos pontos de visitação além do Vale do Pati, fica a dica: reserve alguns dias a mais para conhecer e desfrutar de outras trilhas.
O caminho para cruzar o Vale do Pati deve ser feito com um guia, pois as trilhas não são demarcadas e elas simplesmente desaparecem entre as pedras — facilmente a pessoa pode se perder. Além disso, a escolha do caminho depende muito da meteorologia – sol ou chuva? Tudo pode mudar de acordo com o tempo. É o respeito pela natureza no sentido mais primitivo. É preciso se adaptar a ela.
A caminhada
Primeiro dia: respire fundo e desapegue do celular!
A distância entre o Capão e o Guiné é de aproximadamente 50km, com duração de uma hora e trinta minutos e pode ser feita de carro. A estrada é de terra batida, nos dias quentes, há muita poeira, nos dias chuvosos, muita lama. Ao longo do caminho é possível ver a paisagem típica da Chapada: morros, grandes pedras e vegetação baixa.
À medida que se aproxima do Guiné, uma cadeia de pedras fica mais próxima: é a Serra do Sincorá — semelhante a uma grande muralha. Aqui começa de fato, o caminho — aos pés da muralha, no local conhecido como Beco do Guiné. Deste ponto em diante serão cinco dias sem telefone, WhatsApp e internet. Apenas a natureza e o encontro com outros semelhantes.
A travessia da muralha se dá através do Beco do Guiné, que é um caminho estreito, íngreme, com muitas pedras e pouca vegetação. Foi ali que conheci o termo “escalaminhar”, como a própria palavra diz: junção de “escalar” com “caminhar”.
A subida é difícil para iniciantes e deve ser feita sem pressa, no estilo “devagar e sempre” — é a parte mais cansativa do primeiro dia. Não é raro precisar dividir o caminho com moradores conduzindo animais, burros e mulas, atravessando a muralha para levar mantimentos para o interior do Vale do Pati.
No topo da muralha é o descanso oficial para almoço – sanduíches e frutas secas. A caminhada após o Beco do Guiné é no plano, com a trilha às vezes marcada na terra, outras vezes sobre platôs de pedra – semelhantes a uma grande laje. O caminho de vegetação baixa chega às margens do Rio Preto – uma parada obrigatória para banho.
O rio não é muito largo, uma parte é rasa quando sobre as pedras e outra é profunda, no seu leito, onde a correnteza é mais forte. Sua água é gelada e de coloração em tons de marrom. A sensação da água gelada no corpo quente e cansado é um verdadeiro deleite — recomendo que experimentem!
A trilha continua do outro lado do rio. Para atravessá-lo é preciso se equilibrar numa estreita e longa pinguela feita de troncos e galhos, entre galhos de árvores e arbustos. A travessia é feita por uma pessoa de cada vez.
O caminho continua pelos Gerais do Rio Preto, cuja vegetação é característica de cerrado – aqui já não existe a Mata Atlântica original. Em alguns pontos avista-se belos muros de pedras – registro das divisas das antigas fazendas de gado, antes de a região virar Parque Nacional.
Depois de muita caminhada, chega-se ao grande Mirante do Vale do Pati — a entrada do Vale. Um cenário divino! A vista perde-se nas montanhas de pedra e no grande vale coberto de vegetação. Particularmente, tive muita sorte em fazer a caminhada no mês de maio, pois a beleza da paisagem foi ampliada com o colorido das quaresmeiras que estavam floridas. O vale parece um grande tapete verde coberto de pontinhos roxos. Um visual simplesmente fantástico.
De lá de cima do Mirante é possível avistar, no fundo do Vale, o lugar chamado Igrejinha – ponto de dormida do primeiro dia. Para chegar lá é preciso descer a Rampa, um percurso feito por uma estreita trilha, bastante íngreme e quase imperceptível, onde muitas vezes é preciso apoiar-se em pedras e segurar nos finos caules da vegetação para não escorregar.
A cada metro descido a paisagem ganha nova forma e novo colorido.
Do pé da montanha até a Igrejinha caminha-se numa trilha suave, com vegetação um pouco mais alta. O lugar chamado Igrejinha é a morada de uma família de nativos que se recusou a deixar o Parque Nacional, quando da sua criação. Além da casa principal, há outras pequenas construções com quartos para hospedagem, banheiros e uma capela.
Os quartos são compartilhados, possuem camas de solteiro e beliches — tudo muito simples, limpo e aconchegante. Eles fornecem roupa de cama e cobertor.
O jantar é servido impreterivelmente às vinte horas, numa espécie de varanda com mesas grandes e bancos compridos. É o momento de encontrar outros andarilhos, trilheiros e “patizeiros” oriundos de várias partes do mundo. É incrível como as conversas fluem facilmente sobre as trilhas realizadas no dia, a origem de cada um e o que será feito no dia seguinte.
Segundo dia: faça sua oração e mantenha o foco!
O local foi batizado de Igrejinha porque nele há uma capela. Assim como as demais construções, a capela é muito simples: paredes pintadas de branco, cobertas por um telhado de duas águas e um pequeno altar. Dentro, a penumbra convida ao recolhimento – faça sua oração!
O destino do segundo dia é o Cachoeirão, com vista pelo alto através de dois mirantes. Depois, descer a Fenda e seguir para a casa de Dona Raquel, outra nativa que, juntamente com os filhos, mora no Pati e hospeda os visitantes. Existe também a possibilidade de ir ao Cachoeirão por baixo, mas esse é um outro caminho.
A trilha para o Cachoeirão é longa e em suave aclive. Nas partes planas é possível ver muitas flores e minijardins sobre as pedras. Quando chove ela fica encharcada e é preciso atenção para não escorregar nem afundar as botas nas poças d’água.
Ao chegar ao primeiro mirante você se depara com uma paisagem deslumbrante. O Cachoeirão é uma formação que lembra uma ferradura, os mirantes ficam nas laterais da ferradura.
Um visual de tirar o fôlego. Do alto, é possível deitar sobre um platô que se projeta no ar e ver o vale e os paredões de pedra com várias quedas d´água, de até trezentos metros, jorrando entre elas. Ao fundo vê-se lagos que se formam com as águas das cachoeiras. Olhando para frente, a vista do vale estende-se até onde o olhar não alcança.
Para alcançar o segundo mirante é necessário cruzar um rio, saltando por entre as pedras. É um rio com correnteza, mas que forma pequenos lagos onde é possível um banho em água geladíssima — um choque térmico para dar coragem para seguir adiante.
Após o prazer visual do segundo mirante, é preciso seguir o caminho árduo em direção à Fenda, com muitas subidas e algumas descidas, em uma trilha quase imperceptível.
Depois de subir quase mil metros, chega-se à Fenda — uma passagem entre pedras que descortina um visual “Macchupítico” — como falam os guias numa referência à grandeza do visual de Machu Picchu. A vista da Fenda é um espetáculo. De lá é possível ver o Morro do Castelo, imponente no meio do vale, com sua base coberta de mata e no topo uma coroa de pedras.
A descida através da Fenda é longa e cansativa – são quatrocentos metros na vertical, acompanhando o paredão de pedra que forma a montanha. O percurso é extremamente perigoso para um iniciante – há risco de escorregar entre pedras soltas e muitas vezes é necessário usar os cinco apoios, ou seja, descer sentado, utilizando dois braços, duas pernas e o bumbum.
Depois de chegar ao fundo do Vale, há um longo percurso de subidas e descidas próximo ao leito do rio até chegar à casa de Dona Raquel.
A casa de Dona Raquel é um dos pontos mais conhecidos do caminho e sempre tem muitos hóspedes. Assim como na Igrejinha, a casa de Dona Raquel é composta por várias construções com quartos para hospedagem, banheiros e uma área para camping.
As refeições também são servidas na varanda, em mesas coletivas, na qual é possível conhecer pessoas de várias cidades do Brasil e do mundo. Se você der sorte, poderá desfrutar do som da sanfona tocada por um dos filhos de Dona Raquel.
Terceiro dia: agradeça e aproveite cada momento!
O terceiro dia pode ser o menos cansativo. Utilizando como base a casa de Dona Raquel, é possível fazer pequenas trilhas para banho de rio e de cachoeira, como a Cachoeira do Funil, com cerca de trinta metros de queda d’água.
Quarto dia: almoce no céu, pertinho dos anjos!
Da casa de Dona Raquel até os pés do Morro do Castelo é uma descida pequena e antes passa-se pela Casa do Sr. Wilson, que além de hospedaria também oferece apoio a quem vai subir o Castelo – lá é possível deixar parte do peso da mochila. A subida ao Castelo é íngreme– aproximadamente seiscentos e vinte metros e o Morro do Castelo fica a mil trezentos e cinquenta metros de altitude.
A partir da casa do Sr. Wilson, o primeiro desafio é atravessar o rio Pati que, quando cheio, tem correnteza. Aqui não há ponte nem pinguela que ajude na travessia. É preciso tirar as botas e caminhar sobre as pedras e, às vezes, com os pés por dentro d´água, até chegar ao local apropriado para a travessia.
A subida do Morro do Castelo é íngreme e a trilha é sobre pedras com vegetação alta nas laterais. À medida que se sobe, a vegetação fica para trás e as pedras do topo do morro dominam o cenário. Quase no topo, há um mirante, onde fica a entrada da gruta.
O caminho pela gruta não é longo: uma grande “boca” para entrar, uma descida entre pedras, uma caminhada de aproximadamente dez minutos e uma subida quase vertical para sair no outro lado. Apesar de curto, a escuridão é intensa e é preciso usar a lanterna.
Após a passagem pela gruta, a subida continua. É preciso escalaminhar sobre um amontoado de grandes pedras, empilhadas umas sobre outras, com grandes vazios entre elas. É um percurso perigoso onde todo cuidado é pouco!
Do alto do mirante do Morro do Castelo a visão é espetacular, vales verdes e gigantescas montanhas remetem a um cenário ancestral. Impossível não sentir a presença do tempo passado, há milhões de anos.
É um belo local para o almoço — um almoço no céu, pertinho dos anjos! Ainda no alto do Castelo, há um outro mirante que descortina uma paisagem de igual beleza.
O caminho de volta é pelo mesmo local: passagem pela gruta, descida do morro, travessia do rio e caminhada até a casa do Sr. Wilson. De lá, uma caminhada em direção à Igrejinha por uma trilha diferente da realizada no primeiro dia — as subidas e descidas não são íngremes, mas o percurso é longo.
Quinto dia: alimente sua força e coragem
O último dia é o mais longo, aproximadamente 20km da Igrejinha até a Vila do Bomba, no Capão. A saída da Igrejinha se dá pelo mesmo caminho de chegada no primeiro dia na vinda do Guiné: uma pequena caminhada até o pé da Rampa e depois a subida da Rampa até o Mirante do Pati.
Do alto do Vale, é a hora de dar adeus àquela paisagem divina e seguir viagem pelos Gerais do Rio Preto por algumas horas. Ao longo do caminho, pode-se ver sucessões de montanhas até chegar a uma passagem chamada Quebra Bunda. Do alto, é possível ver os Gerais do Vieira e a trilha a ser seguida após a descida.
A passagem chamada Quebra Bunda é uma descida de aproximadamente cento e cinquenta metros, em pedras escorregadias que rolam aqui e ali. Esta é a última grande descida.
A descida deve ser feita com cuidado para não escorregar e, literalmente, não “quebrar a bunda” ou ter outro acidente qualquer. Após a descida, o caminho pelos Gerais do Vieira é suave, com subidas, descidas e travessias de pequenos rios.
O grande desafio deste dia é manter o ritmo para vencer a distância no tempo previsto. A parada para o descanso é num lugar chamado Rancho dos Vaqueiros, um local desocupado, com muitas árvores e um ótimo banho de cachoeira.
Neste caminho de volta, passa-se por córregos e por uma pequena área arborizada, que não chega a ser uma floresta, mas proporciona sombra e deixa o clima ameno. Os últimos quilômetros são de descida suave, com pequenos rios e riachos para cruzar – às margens de um deles está a Vila do Bomba.
Da Vila do Bomba ao Capão o percurso é de 8km e, após andar 20km, recomendo que este trajeto seja feito de carro.
Dicas e curiosidades
- Para chegada ao Capão você pode sair de Salvador até a cidade de Palmeiras, de ônibus. De Palmeiras para o Capão há veículos, tipo vans, que fazem o trajeto. A estrada é de barro e em dias de chuva há muita lama. A depender do volume de chuva a estrada pode ficar interditada.
- No Capão existem muitas pousadas — você pode escolher e reservar pela Internet.
- O caminho pelo Vale do Pati é um trekking, ou seja, é uma caminhada por montanhas com pontos de difícil acesso — é preciso condicionamento físico, cuidado com os joelhos e atenção na hidratação.
- Para fazer o caminho do Vale do Pati contrate um guia habilitado pois, como já falei anteriormente, as trilhas não são demarcadas e elas simplesmente desaparecem entre as pedras e, facilmente, a pessoa pode se perder. Normalmente, o pacote oferecido pelos guias inclui: hospedagem nas casas dos nativos com jantar e café da manhã, lanche para o percurso e kit de primeiros socorros.
- Existe a possibilidade de acampar, mas eu recomendo a hospedagem nas casas dos nativos, pois além de reduzir o peso da mochila, você terá oportunidade de conviver com os habitantes locais e com outros caminhantes.
- A hospedagem nas casas dos nativos é organizada pelo guia a depender do percurso escolhido e da quantidade de dias. São casas simples com quartos e banheiros coletivos. A maioria das casas possui placa solar, o que dá condições de carregar celular e máquinas fotográficas — mas lembre-se, não há Internet, sinal de celular ou qualquer forma de comunicação digital!
- A hospedagem oferece café da manhã e jantar que são servidos, pontualmente, às 7h e às 20h. A comida é farta, variada e com muitos pratos típicos da região como: moqueca de jaca, lasanha de banana, ensopado de mamão verde e palma refogada. Para o percurso você precisa levar sanduíches, frutas, mix de cereais e chocolate, além da água — 1,5 litros na mochila, o que poderá ser reabastecido ao longo do dia.
- Sobre o banho e a roupa suja: o banheiro é coletivo e fica fora dos quartos. A depender da quantidade de hóspedes e do horário que você chegar na casa, pode conseguir tomar um banho morno. É possível lavar roupa na hospedaria, mas nem sempre a roupa enxuga devido ao clima úmido e frio.
- Sobre o lixo produzido por você: leve saco plástico para recolher seu lixo – tudo que levar deve voltar com você, mesmo o lixo biodegradável. Já ouviu falar em poluição visual? Então, não queremos um caminho cheio de cascas de frutas, né?
Para os iniciantes
- Os especialistas em trilhas recomendam que o peso máximo para carregar corresponde a 10% do seu peso ideal – observe que eu disse “peso ideal” e não “peso atual”.
- O volume e o peso da mochila devem ser mínimos. Utilize recipientes pequenos para sabonete, shampoo, protetor solar e repelente — lembre-se, serão apenas cinco dias.
- Utilize uma mochila com fixação na cintura e peiteira — mesmo com as alças apertadas, a mochila movimenta-se nas costas e pode desequilibrar a pessoa nas descidas.
- Prefira uma lanterna com fixação na cabeça — suas mãos ficarão livres.
- O calçado deve ser próprio para trekking — solado de borracha, com birros e impermeável.
- Para aqueles que não têm hábito de fazer caminhadas ou trekking, os guias indicam envelopar os dedos e pés com esparadrapo microporo para evitar bolhas. A cada banho de rio é preciso cumprir o ritual de secar os pés e embalar os dedos e pés com esparadrapo, para depois calçar as meias e as botas.
- Prefira as camisas com proteção UV — além de proteger do sol, são mais fáceis de lavar e secar. Você também precisará de uma toalha do tipo seca fácil, de uma roupa quente para dormir, um casaco, meias e capa de chuva.
- Não esqueça dos óculos escuros, os óculos de grau (se necessário) e o boné e, não deixe de levar creme para assadura e relaxante muscular.
Impressões
Uma das coisas que mais me impressionou durante os dias que passei no Vale do Pati foi ver a quantidade de mulheres que estavam ali, sozinhas ou em grupo, cada uma com seu desafio particular.
Outra coisa interessante foi ver os semblantes dos viajantes: cansados ao final do dia e animados ao amanhecer – foi aí que entendi a prosa popular:
— Felicidade, onde andas?
— Ando dentro de ti…









