Jealva Ávila

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terça-feira, 30 junho 2026 / Publicado em Crônicas

Corações espetados

Gente estranha, festa esquisita.

Não é um trocadilho da música Eduardo e Mônica. Está mais para um tiquinho de liberdade poética somada a algumas doses de caipirinha, uma mistura que tem o poder de transformar metáforas em assombros engraçados.

Deveria ser um almoço de noivado, mas já passava das dezesseis horas, a festa fervia e certamente o almoço seria transformado em jantar. Os noivos estavam mais alegres e embriagados do que os convidados, que se espremiam num espaço apertado, respirando o calor de trinta e sete graus que se misturava ao cheiro do churrasco servido como tira-gosto da festança. O tira-gosto era farto e a bebida também.

– Outra caipirinha?
– Mas é claro! Tim-tim…

Não se sabia quem falava mais alto: os convidados, os garçons ou o cantor de piseiro que animava e esquentava ainda mais o ambiente.

– Calabresa apimentada?
– Oxe! Está ótima!
– Pão de alho?
– Adoro, obrigada!
– Outra caipirinha?
– Com bastante gelo, o calor está me matando.
– Espetinho de coração de galinha, quem vai?

Um prato cheio de espetinho passou na minha frente. Achei os corações pequenos e tostados, passei adiante. O prato voltou com o último espetinho, que eu, educadamente, rejeitei. O prato seguiu, indo parar nas mãos de um senhor que acompanhava com os olhos o caminho percorrido pelo tira-gosto. Ele pegou o espeto do prato e gritou, oferecendo novamente.

– Espetinho de frango, quem quer?

Esticou o braço em minha direção e insistiu:

– É coração de frango!

Com o espetinho quase tocando meu nariz, eu respondi em meio à barulheira:

– Prefiro coração de gente!

O homem puxou o espeto e olhou para mim com assombro. O sorriso sumiu do seu rosto sem cor e molhado de suor. Fiquei sem graça ao perceber que ele levou a frase ao pé da letra e que estava com medo. Com os olhos fixos nos meus, ele perguntou: qual a sensação de comer um coração humano?

As pessoas ao meu redor riram do trocadilho. Eu também ri e pensei: “Que diabos! O que vou responder?” Hoje é dia de festa, de alegria. Isso, dia de alegria. Quase gritando eu verbalizei:

– Alegria!!!

Seus olhos saltaram da órbita. A confusão mental foi instalada. Eu podia ver uma fumacinha saindo da sua mente. O que será que ele estava pensando?

Não demorou muito ele se aproximou e falou baixinho:

– Já tive vontade de comer alguns corações humanos, mas tive medo da indigestão.

De pronto eu respondi:

– Dá indigestão mesmo! Melhor não experimentar.

Outra caipirinha?

Melhor não, já falei mais do que devia.

Saí da festa à francesa, antes mesmo de servirem o almoço.

Voltei para casa morrendo de medo.

Sabe-se lá o que despertamos no coração das pessoas?


Publicado em 03/02/2024, na @temposcronicos.
Imagem: https://tinydemonco.com/products/sets-of-heart-pins

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