Gente estranha, festa esquisita.
Não é um trocadilho da música Eduardo e Mônica. Está mais para um tiquinho de liberdade poética somada a algumas doses de caipirinha, uma mistura que tem o poder de transformar metáforas em assombros engraçados.
Deveria ser um almoço de noivado, mas já passava das dezesseis horas, a festa fervia e certamente o almoço seria transformado em jantar. Os noivos estavam mais alegres e embriagados do que os convidados, que se espremiam num espaço apertado, respirando o calor de trinta e sete graus que se misturava ao cheiro do churrasco servido como tira-gosto da festança. O tira-gosto era farto e a bebida também.
– Outra caipirinha?
– Mas é claro! Tim-tim…
Não se sabia quem falava mais alto: os convidados, os garçons ou o cantor de piseiro que animava e esquentava ainda mais o ambiente.
– Calabresa apimentada?
– Oxe! Está ótima!
– Pão de alho?
– Adoro, obrigada!
– Outra caipirinha?
– Com bastante gelo, o calor está me matando.
– Espetinho de coração de galinha, quem vai?
Um prato cheio de espetinho passou na minha frente. Achei os corações pequenos e tostados, passei adiante. O prato voltou com o último espetinho, que eu, educadamente, rejeitei. O prato seguiu, indo parar nas mãos de um senhor que acompanhava com os olhos o caminho percorrido pelo tira-gosto. Ele pegou o espeto do prato e gritou, oferecendo novamente.
– Espetinho de frango, quem quer?
Esticou o braço em minha direção e insistiu:
– É coração de frango!
Com o espetinho quase tocando meu nariz, eu respondi em meio à barulheira:
– Prefiro coração de gente!
O homem puxou o espeto e olhou para mim com assombro. O sorriso sumiu do seu rosto sem cor e molhado de suor. Fiquei sem graça ao perceber que ele levou a frase ao pé da letra e que estava com medo. Com os olhos fixos nos meus, ele perguntou: qual a sensação de comer um coração humano?
As pessoas ao meu redor riram do trocadilho. Eu também ri e pensei: “Que diabos! O que vou responder?” Hoje é dia de festa, de alegria. Isso, dia de alegria. Quase gritando eu verbalizei:
– Alegria!!!
Seus olhos saltaram da órbita. A confusão mental foi instalada. Eu podia ver uma fumacinha saindo da sua mente. O que será que ele estava pensando?
Não demorou muito ele se aproximou e falou baixinho:
– Já tive vontade de comer alguns corações humanos, mas tive medo da indigestão.
De pronto eu respondi:
– Dá indigestão mesmo! Melhor não experimentar.
Outra caipirinha?
Melhor não, já falei mais do que devia.
Saí da festa à francesa, antes mesmo de servirem o almoço.
Voltei para casa morrendo de medo.
Sabe-se lá o que despertamos no coração das pessoas?
Publicado em 03/02/2024, na @temposcronicos.
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