por Jealva Ávila
Continuei descendo.
A essa altura, a escada já parecia uma excursão organizada para lugar nenhum. Todo mundo sabia que o prédio estava em chamas, mas todos continuavam descendo com uma disciplina admirável.
Depois de descer dezenove andares, cheguei ao nível da portaria que dava para a rua principal. A porta estava aberta, mas o saguão estava completamente entupido de gente. As oito catracas tentavam dar conta de uma multidão que parecia ter esquecido um detalhe importante: para sair do prédio era preciso deixar espaço para quem ainda estava tentando sair.
Observei a cena por alguns segundos.
As pessoas que já tinham passado pelas catracas não queriam ficar na calçada. Provavelmente estavam com medo de assalto. Então permaneciam amontoadas logo depois da saída, formando uma espécie de congestionamento humano.
Um incêndio em andamento e ainda conseguíamos criar um engarrafamento de pedestres. Certas habilidades a humanidade simplesmente não perde. A humanidade nunca decepciona.
Sem muita opção, fui levada pela correnteza de gente que seguia escada abaixo.
Mais um pavimento.
Outra porta aberta dava acesso para uma das garagens.
Espiei por cima de alguns ombros e vi pessoas tentando tirar os carros.
Parei por um instante.
Será que ainda dá tempo de tirar o meu?
A ideia surgiu com a velocidade de um relâmpago.
Se eu conseguisse chegar até ele, poderia ir para casa, sentar no sofá e acompanhar tudo pela televisão, confortavelmente distante da fumaça, dos alarmes e da agonia coletiva.
Mas e se não desse tempo?
A reportagem surgiu imediatamente na minha imaginação.
“Mulher morre tentando salvar o próprio carro durante incêndio.”
Já conseguia ouvir os comentários.
— Que loucura.
— Não tinha juízo.
— Priorizou o carro em vez da própria vida.
Eu não queria virar matéria de jornal nem exemplo negativo em grupo de WhatsApp.
Continuei descendo.
Na saída da garagem, que dava para uma rua secundária, havia uma mistura caótica de carros, pessoas e curiosos. Alguns veículos conseguiam avançar. Outros aguardavam. Alguns motoristas pareciam acreditar que estavam participando da largada de uma corrida.
Do lado de fora, na rua dos fundos, outra aglomeração.
E agora?
Esperar?
Pedir um Uber?
Voltar?
E a bolsa?
E o computador?
E o carro?
O sol do meio-dia fritava qualquer resquício de bom senso.
Comecei a procurar rostos conhecidos.
Será que todo mundo saiu?
Cadê Lucas?
Não vi Lucas.
Peguei o celular.
— Alô? Lucas já saiu?
A resposta veio quase imediatamente.
A equipe estava reunida na frente do prédio.
Ufa.
Caminhei até lá.
A rua principal já estava interditada.
Viaturas da polícia.
Agentes de trânsito.
Carros do Corpo de Bombeiros.
Um helicóptero de emissora de televisão circulando acima das nossas cabeças.
E, claro, os influenciadores digitais. Hoje, qualquer acontecimento relevante produz duas operações simultâneas: a de emergência e a de criação de conteúdo.
Celulares apontavam para todos os lados.
Vídeos.
Lives.
Stories.
Relatos em tempo real.
Encontramos um pequeno pedaço de sombra sob a marquise de um prédio vizinho e nos instalamos ali para observar a fumaça que continuava saindo do edifício.
Foi quando avistei a vitrine do café.
E a minha barriga decidiu se manifestar.
Olhei uma vez.
Olhei outra.
E lá estava ele.
Lindo.
Moreno.
Macio.
Perfeito.
— Tem um brigadeiro me olhando.
— Onde?
— Ali.
— Não estou vendo.
— Eu olho para ele e ele olha para mim.
Alguns colegas começaram a rir.
Na minha cabeça, o brigadeiro já tinha voz própria.
Parecia desenho animado.
Eu quase conseguia ouvi-lo.
Me coma!
— O quê?
— Nada.
— Que história é essa?
— Acho que vou cair na tentação.
— Você está surtando.
Continuei olhando para a vitrine.
— Gente, alguém ajuda. Ela está surtada.
— Está querendo agarrar o bombeiro.
— Que bombeiro?
— Aquele que está olhando para ela.
— Não é o bombeiro.
Suspirei.
— É o brigadeiro.
— Brigadeiro, bombeiro… é tudo parecido.
— Não é nada parecido.
— E qual deles você quer?
— O brigadeiro.
— O bombeiro não?
— Eu quero comer o brigadeiro.
— Não vai comer nada.
— Gente, liga para o marido antes que faça uma besteira.
Continuei olhando para a vitrine.
Naquele momento, entre um prédio em chamas e um brigadeiro perfeito, confesso que o brigadeiro ainda parecia oferecer melhores chances de sobrevivência.
Publicado em 11/08/2026, na @temposcronicos.
Imagem: IA – criação da autora.











