por Jealva Ávila
Querida eu,
Se você estiver lendo esta carta, significa que deu tudo certo. Que consegui colocar no papel a versão da carta mental que redigi enquanto descia as escadas de incêndio do prédio onde trabalho — o que, pensando bem, é exatamente o tipo de coisa que eu faria.
Estou descendo agora. O alarme toca sem parar e uma fila surpreendentemente educada ocupa a escada de emergência. Tem gente olhando o celular, comentando banalidades e algumas pessoas com aquela calma suspeita de quem acredita que tudo não passa de mais um treinamento.
Eu também achei.
Por uns bons trinta segundos.
Até olhar pela janela e ver a fumaça subindo do andar logo acima do meu.
Antes disso aconteceu uma coisa estranha. Começaram a cair uns pontinhos miúdos lá fora. Eu olhei rápido e pensei: “Ah, começou a chover.”
Só que o céu estava azul. Azul propaganda de agência de turismo. Um azul completamente incompatível com chuva.
Foi aí que pensei: Ops… isso não é chuva.
Agora estou aqui, descendo as escadas com uma calma meio improvisada, acompanhada por pessoas que parecem estar indo para um café coletivo um pouco mais dramático que o habitual.
Trouxe apenas três coisas: meus óculos, o celular e esta carta que estou escrevendo dentro da minha cabeça, porque aparentemente meu cérebro decidiu que este é um excelente momento para lembrar de tudo o que eu ainda não fiz. Por exemplo: regar as plantas. De novo eu esqueci. Se alguma ainda estiver viva quando eu chegar em casa, merece um prêmio de sobrevivência botânica.
Também esqueci de responder algumas mensagens importantes e um convite para café que venho adiando há semanas. Talvez a pessoa já tenha desistido de mim, o que, considerando o cenário atual, não seria totalmente injustificável.
Ah, e esqueci de terminar aquele livro que está na cabeceira da cama. Faltavam poucas páginas.
Estou no décimo andar agora. Ou no nono. É difícil contar degraus quando a cabeça começa a listar pequenas pendências da vida.
Outra coisa que esqueci: dizer para algumas pessoas que gosto delas. Não que seja tarde demais — afinal estou apenas descendo escadas — mas teria sido elegante dizer antes de um possível incêndio corporativo.
Também continuo sem saber dobrar lençóis com elástico. Um fracasso doméstico persistente.
E esqueci de várias outras coisas simples: dançar mais, comer com calma, fazer yoga, meditar e parar de achar que sempre haverá tempo depois.
O cheiro de fumaça já chega aqui, mas a fila continua organizada demais para um incêndio.
À minha frente desce uma senhora com uma bolsa enorme. Daquelas capazes de guardar documentos, fotografias, uma muda de roupa e talvez até um bolo inteiro. Ela desce com uma calma admirável, como quem já viu coisas mais complicadas do que um alarme tocando numa terça-feira qualquer.
Talvez todos ainda estejam esperando alguém aparecer e dizer: “Podem voltar, era apenas um treinamento.”
Enquanto isso, eu sigo descendo e pensando que, quando chegar lá embaixo, talvez seja uma boa ideia finalmente fazer algumas coisas simples como responder mensagens, regar plantas, terminar livros e dizer “eu gosto de você”.
E talvez prestar mais atenção nas pequenas coisas que caem do céu.
Especialmente quando o céu está completamente azul.
Porque, no fim das contas, é curioso como a vida às vezes começa a cair em pedacinhos justamente nos dias em que o céu está mais azul.
Publicado em 09/07/2026, na @temposcronicos.
Imagem: IA – criação da autora.











