JADEs
Jealva Ávila, Américo Paim, Dea Ferreira e Elba Vieira
Confiro as horas.
O barco já vai partir.
Do trapiche eu olho as nuvens, o mar, o barco e as pessoas que embarcam…
O vento sussurra baixinho: vamos?
Arreio as malas no chão, dou meia-volta, caminho devagar e sem olhar para trás.
Carrego em mim algumas poucas certezas: não quero navegar em oceanos azuis nem mares vermelhos. Tudo que quero é um belo e tranquilo lago cor de rosa.
Após alguns parcos minutos, encosto-me em um barril velho e me pergunto: como foi mesmo que cheguei a esse ponto? Tudo parecia caminhar tão seguro, controlado, encaixado, previsível, até aquele dia que nunca me deixa…
Depois de tantos anos achando que a conhecia, tantos momentos juntos, risos e lágrimas, histórias de um para o outro, outras juntos, marcas que não se apagariam, não se apagarão. Só não estava pronto para o que se descortinou, sem aviso prévio. Eu e meu espírito desarmado, uma fronteira desguarnecida, não estávamos prontos para tal movimento no tabuleiro.
Agora não há mais chão, só desespero de impotência, abandono de solidão, de alma vazia. Eu acho que fiz tudo por me manter inteiro e ainda foi muito. Não deu. Não dá.
Eu deveria estar naquele barco. Eu deveria estar singrando em direção ao desconhecido, pois agora eu mesmo não me conheço. Eu preciso de um barco que me leve, pois não me vejo timoneiro de mais nada. Agora sou uma página em branco, para escreverem qualquer história. Eu que era forte, eu que era guia, agora sou folha caindo, ao sabor do vento. Dele mesmo, o que insiste em sussurrar-me ao ouvido: por que ela me revelou aquilo, daquela forma?
O desconhecido deveria ser o meu caminho. Só o recomeçar poderia me trazer força, ocupar minha mente, substituir velhas imagens por novos sonhos e significados. Só o que não sei poderia me reerguer e me fazer esquecer, preencher novamente o vazio escuro e frio que tomou conta da minha alma. Mas não há força em minhas pernas, não há ar nos meus pulmões… Quanto mais me aproximo do cais, mais desfaleço…
Não desejo oceanos azuis nem mares vermelhos, disso tenho certeza. Aquele sagrado minuto já havia me revelado o caminho, mas fui fraco e, pela primeira vez na vida, tive medo. Apenas um beijo, suave e doce, invasor, e um leve sussurro quente, “até hoje, vivi por ti, apenas por ti… não posso mais”, e tudo, absolutamente e desgraçadamente tudo, naquele dia e para sempre, havia perdido o sentido. Não havia mais som, não havia mais luz. Na minha memória, da pele e da alma, restou e sobrevive apenas a lembrança daquele sabor doce, provado apenas uma única vez.
Confiro as horas.
Confio nas horas.
Não em sua inquietude dilacerada em minutos e segundos, mas confio no poder que seu silêncio exerce sobre mim. Este silêncio arrebatador, capaz de me fazer pensar, questionar, antever. Sou eu mesmo o personagem do meu tempo, diante da cena da minha vida. Do meu amor. Das incoerências vividas, do vazio preenchido por aquele amor sólido, constante, turbulento… do amor quase absoluto. Quase irreal. E que, tão de repente e sem que eu percebesse, estava ali, bem na minha frente. Partir? Ficar?
O cais.
O barco.
O amor.
Velas ao vento.
Não demorou perdê-las de vista, ultrapassando os limites do horizonte.
Sim, desisti.
Não, resisti.
Desisti das dores possíveis de um amanhã breve. Resisti aqueles encantos. Aquele olhar. Breve. Perfeito.
Confio nas horas.
Mas, acima de tudo, confio em meu coração.
Em minha alma que arde de desejo de um novo mar.
Um novo ar.
Um novo amar.
Já não existem mais malas.
Agora, eu moro em mim.
Publicado em 07/07/2019, na @temposcronicos.
Imagem: Sem referência.










